O embate. Ou a (des)construção
A parte mais difícil do escrever é o de iniciar a escrita. Aos poucos vou me apropriando da linguagem do escrever. A linguagem é majestosa. A linguagem cria, estrutura, constrói um mundo inteiramente novo e, à medida em que uma palavra puxa a outra numa corrente sem fim, vai emergindo um esboço desse riacho. Um esboço que não está finalizado, que não é tangível, mas que certamente é alguma coisa. E ele só aparece enquanto se escreve. A linguagem não existe, a linguagem não tem uma substância própria, ela simplesmente aparece em ato. Apropria-se da linguagem, distorce, torce, reflete, brinca, encadeiam-se as palavras que, apesar da capa do significante, só possuem sentido à medida que o corpo a usa, que a boca fala, que a cabeça pensa e que o dedo digita. E nesse ato de linguajar o sentido emerge. É engraçado. Se a palavra me permite narrar e simbolizar o mundo em certa medida, ela me permite também, a fortiori, criar uma realidade, ou melhor, modificar a maneira que experiencio o isso ...