O embate. Ou a (des)construção
A parte mais difícil do escrever é o de iniciar a escrita. Aos poucos vou me apropriando da linguagem do escrever. A linguagem é majestosa. A linguagem cria, estrutura, constrói um mundo inteiramente novo e, à medida em que uma palavra puxa a outra numa corrente sem fim, vai emergindo um esboço desse riacho. Um esboço que não está finalizado, que não é tangível, mas que certamente é alguma coisa. E ele só aparece enquanto se escreve. A linguagem não existe, a linguagem não tem uma substância própria, ela simplesmente aparece em ato. Apropria-se da linguagem, distorce, torce, reflete, brinca, encadeiam-se as palavras que, apesar da capa do significante, só possuem sentido à medida que o corpo a usa, que a boca fala, que a cabeça pensa e que o dedo digita. E nesse ato de linguajar o sentido emerge.
É engraçado. Se a palavra me permite narrar e simbolizar o mundo em certa medida, ela me permite também, a fortiori, criar uma realidade, ou melhor, modificar a maneira que experiencio o isso da realidade. A palavra me permite, assim, criar discursos totalmente novos, me reinventar, alterar o mundo, furar o mundo. Introduzir o meu pênis ereto no mundo e fertilizá-lo de mim, contaminá-lo de mim, brincar de deus. Nessa brincadeira de mudanças e diferenciações, e, sobretudo, de palavras, me questiono: onde está a verdade? Há sequer essa coisa que fomos habituados a chamar de verdade? Existe realmente esse algo profundo, inalterável, imóvel, perene, imutável e inacessível?
A palavra cria verdades não verdadeiras. Cria estruturas fracas. Fracas porque não são rígidas; na verdade, talvez não possuam sequer materialidade própria: são discursos e práticas repetidos aqui e acolá por todos nós. E discursos e práticas são palavras. Mas se mudo o discurso e as práticas, veja só, modifico a estrutura, entorto, dissolvo, marco. A linguagem tem esse poder de alterar a realidade. Assim, se a estrutura da realidade é a linguagem, pois ela cria um mundo, e a linguagem é difusa, rasteira, caótica, construída em ato, contaminada por resistências dos corpos, afetos e poderes, denuncia um sentido enquanto se pratica, o que é, efetivamente, o mundo, ou melhor, no que efetivamente a realidade se estrutura? Em outras palavras, se tudo é difuso e caótico, o que é a realidade? E se tudo é palavra, como há uma realidade feita por si?
Quando afirmo algo, estou negando o contrário desse algo. Se digo que algo é belo, é porque esse algo também não é feio. Surge aí um distanciamento, uma diferenciação. O fio que liga o belo e o feio se distancia e as pontas se forçam uma contra a outra; o fio estica. E esse fio esticado não sei o que é, mas me parece ser importante. O fato é que surge uma tensão. O nosso sistema de linguagem parece, em certo ponto, funcionar nessa tensão. Onde há palavra há tensão, e onde há tensão, parece haver um conflito prestes a eclodir, um fio prestes a arrebentar. E sabe-se lá o que ocorre quando esse fio se quebra. Talvez venha o grito. A realidade parece, em certa medida, situar-se nessa tensão, nesse tesão permanente da luta. Tensão, tesão, pau, cu e buceta: um querendo penetrar o outro para criar quimeras, misturas de discursos de realidade, heterogeneidade. Se a linguagem é tensão e criação, não se pode ignorar que a realidade é também contaminada por essa tensão, por uma guerra contínua que ameaça surgir, por um fio prestes a arrebentar! Por um “pare com essas brincadeiras gostosas”. Mas um fio que também cria. Como se a estrutura fraca e difusa ameaçasse ruir e aparecer na luta.
É angustiante admitir, muito! Não há verdades, há apenas discursos, tensão, criação constante e práticas: linguagem. É angustiante não haver uma mãe a quem se apoiar nessas horas. Mas não somos crianças; temos de ser minimamente narcisistas para enfrentar a luta. Mas também é libertador não estar preso a uma estrutura rígida. Só eu, você e a palavra; abismo. Sei que quando te olho, você me olha, Deus. Você é o próprio abismo. Você, o visceral. Você não parado, como dizem os aristotélicos; você é e está para além da linguagem, você é a heterogeneidade pura, a diferença, a mudança contínua, a criação contínua, o movimento em si. Você é o devir, o caótico e ordenado devir. Você é a materialização do vazio, do abismo. Você é a falta que preenche. Deus, você é o abismo que me liberta e me condena. Você é e não é. Você é criação e criador. Você é a tensão, a luta, o buraco. Você é o cu que o meu pau penetra e goza. Você é tudo. Você é gozo. Você é inominável. Você é o pau que penetra o meu cu. Você é aquilo que, quanto mais olho, mais me angustia, que mais me enche de livre-arbítrio e vida. Que permite modificar. Que permite torcer. Que impede o ser em estado, mas que é o próprio ser que não está. Você é o meu abismo. Você sou eu. Eu sou. E eu te respeito, e te vanglorio.
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